Sector europeu de bombas de calor mantém papel-chave na transição energética, apesar de retracção temporária, aponta relatório

A indústria europeia de bombas de calor atravessa um momento de contraste: após um boom em 2022 impulsionado pela crise energética, o mercado desacelerou nos dois anos seguintes, mas os indicadores de longo prazo continuam a apontar para um futuro de crescimento robusto. A conclusão surge de um novo relatório do Observatório de Tecnologias de Energia Limpa, que descreve as bombas de calor como “uma das tecnologias-chave para a meta de neutralidade de carbono até 2050”. 

Actualmente, cerca de 23 milhões de bombas de calor estão instaladas na União Europeia para aquecimento de edifícios. O sector registou números recorde em 2022, ano em que as vendas chegaram a 2,8 milhões de unidades, impulsionadas pela escassez de gás provocada pela invasão da Ucrânia pela Rússia. Mas o dinamismo não se manteve: a instalação de novas unidades caiu para 2,7 milhões em 2023 e para 2 milhões em 2024. 

Ainda assim, o relatório sublinha que o panorama a longo prazo é considerado positivo. “Os números de vendas para 2024 duplicaram em comparação com os de 2017 e mais do que triplicaram desde 2014.” Os dados preliminares de 2025 indicam uma inversão da tendência, sugerindo uma recuperação quando os números anuais forem consolidados. 

A resposta à iniciativa REPowerEU, lançada após o início da guerra na Ucrânia, levou várias empresas a ampliarem rapidamente a produção. Contudo, a aposta antecipada num crescimento contínuo não se confirmou. Como refere o documento, “o mercado registou um declínio nas vendas, deixando muitas empresas a lidar com o excesso de capacidade e os encargos financeiros associados”. 

Este desfasamento coloca desafios adicionais num contexto em que a UE pretende adicionar 30 milhões de bombas de calor hidrónicas até 2030 — uma meta que, após a queda das instalações em 2023 e 2024, “se tornou mais difícil de alcançar”. 

Para reverter o abrandamento, Bruxelas intensificou a acção regulatória. A Comissão Europeia apresentou, em Fevereiro de 2025, um Plano de Acção para a Energia Acessível, e prepara o lançamento de um Plano de Acção para a Electrificação e de uma Estratégia de Aquecimento e Refrigeração. Além disso, em Janeiro foi criada a Plataforma Aceleradora de Bombas de Calor, destinada a acelerar a adopção destes equipamentos. 

Bombas de calor: uma tecnologia madura 

O relatório destaca que as bombas de calor residenciais já atingiram o nível máximo de maturidade tecnológica. No sector industrial, os progressos são significativos para aplicações inferiores a 140 °C, que apresentam um nível 8 de prontidão tecnológica ou superior. Já as bombas para processos entre 140 °C e 200 °C ainda variam entre os níveis 4 e 9, o que, segundo o documento, revela que a aplicação de bombas de calor de alta temperatura “exige mais investigação e desenvolvimento”. 

Apesar da melhoria da eficiência, o custo inicial permanece uma barreira, sobretudo num contexto em que os combustíveis fósseis continuam relativamente baratos em muitos mercados. 

A falta de mão de obra e os benefícios ambientais 

A indústria das bombas de calor é hoje uma força económica relevante. Em 2023, “sustentou 433 mil postos de trabalho directos e indirectos”, um aumento de 120% em apenas seis anos. Para acompanhar a procura prevista, o relatório defende que será necessária uma forte expansão da força laboral, especialmente de instaladores. O documento alerta que “a falta de competências […] constitui um desafio”, exigindo cooperação entre governos, empresas e instituições de ensino. 

Relativamente à sustentabilidade dos equipamentos, a substituição de sistemas de combustão por bombas de calor pode reduzir significativamente a poluição atmosférica. O relatório descreve-as como uma alternativa “que pode ajudar a evitar poluentes atmosféricos nocivos”. 

O sector também está a adaptar-se às novas regras do Regulamento F-Gas, que acelera a eliminação de refrigerantes com elevado potencial de aquecimento global. A transição força a adopção de fluidos naturais e de baixo teor de carbono, algo que já está em curso em várias aplicações. 

Competitividade global: UE reforça posição 

Apesar da concorrência internacional (com a China a deter 35% da capacidade global instalada em 2023), a UE reforçou a sua posição, passando de 13% em 2019 para 27% em 2023. A indústria europeia destaca-se especialmente em bombas de calor hidrónicas e de grande porte para edifícios residenciais, redes urbanas de calor e aplicações industriais. 

A balança comercial extracomunitária tornou-se negativa em 2020 e atingiu um défice recorde de 838 milhões de euros em 2022. Contudo, desde então a tendência mudou: o défice caiu para 115 milhões de euros em 2024. 

“Actualmente, a UE tem capacidade de produção para acelerar os progressos no sentido de atingir os objectivos climáticos e energéticos da UE para 2030 e a transição para a neutralidade climática, tal como definido na Lei da Indústria com Emissões Líquidas Nulas”, conclui o relatório. 

Fotografia de destaque: © Freepik

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