Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 161 da Edifícios e Energia (Setembro/Outubro 2025).
O sector da construção é responsável por uma parte significativa do consumo de energia e das emissões de gases com efeito de estufa na Europa. De acordo com dados da Comissão Europeia, os edifícios representam cerca de 40% do consumo energético total da União Europeia e são responsáveis por 36% das emissões de dióxido de carbono. Sendo que a taxa de renovação do parque edificado é baixa, é urgente desenvolver estratégias que permitam transformar aquilo que se constrói, integrando princípios de eficiência energética, sustentabilidade e inclusão social.
É com esta ambição que nasce o projecto REN+HOMES [Resilient Energy Plus Homes], uma iniciativa financiada pelo programa Horizonte Europa e liderada por um consórcio composto por 23 parceiros de dez países europeus. Para dar o mote, foram escolhidos quatro países da Europa, com características diferentes. Áustria, Espanha, Estónia e Roménia integram soluções adaptadas ao seu país, com propósitos específicos, mas com os mesmos objectivos: começar a preparar as cidades para um futuro mais sustentável. O próximo passo é expandir estas ideias para que outros locais possam seguir as pisadas inovadoras do projecto, colocando os edifícios no cerne daquilo que podemos começar a melhorar hoje para prepararmos e construirmos cidades mais resilientes.
Sob a coordenação técnica de Margherita Fabbri, engenheira civil e gerente de projectos na RINA Consulting, a iniciativa propõe uma abordagem integrada e inovadora à construção e renovação de edifícios residenciais. O “objectivo é replicar os resultados o máximo possível, integrá-los no mercado e ajudar os fornecedores de tecnologias e as construtoras na Europa a renovar e construir novos prédios, que sejam prédios de energia positiva. Temos de pensar em casas que vão além da eficiência energética para produzir energia renovável activamente, incorporar princípios de construção circular e envolver os residentes neste processo”, explica.
QUATRO PAÍSES, QUATRO PROJECTOS-PILOTO, MÚLTIPLOS DESAFIOS
O REN+HOMES não se limita à teoria. Está a ser testado em quatro locais de demonstração na Europa: Innsbruck (Áustria), Barcelona (Espanha), Tallinn (Estónia) e Cluj-Napoca (Roménia). Estes locais foram escolhidos por representarem diferentes contextos climáticos, sociais e regulamentares. Cada um deles aplica soluções distintas e inovadoras.
Em Innsbruck, está a ser construído um edifício novo com um sistema avançado de armazenamento de hidrogénio e gestão de águas pluviais. O edifício está a ser construído para ter certificação da metodologia CPEH, produtos e materiais circulares, ou seja, um sistema de recuperação de calor de águas residuais, betão reciclado e lã mineral para fachadas, gestão do edifício com automatização, através de sistema (BAM-OS) para produção, armazenamento e reconversão de hidrogénio, elevada energia solar no inverno e protecção solar passiva.
Em Barcelona, o foco está numa fachada fotovoltaica integrada e na monitorização inteligente, através de sensores IoT em áreas de baixa potência. Este edifício “é construído com um sistema industrializado inovador que atende aos padrões PassivHaus, baseado em painéis pré fabricados com alta quantidade de materiais reciclados (30%). É 100% eléctrico graças às bombas de calor aerotérmicas e fotovoltaicas e utiliza tecnologias de gestão inteligentes.”
Em Tallinn, decorre uma renovação profunda com componentes de construção industrializados e tecnologias solares pré-fabricadas. Esta renovação acontece na residência estudantil da Universidade de Tecnologia de Tallinn e edifícios residenciais, usando uma nova parede verde pré-fabricada, painel de fachada BIPV e outros sistemas técnicos.
Já em Cluj-Napoca, a intervenção, realizada também em residências universitárias, aposta em paredes geotermais e em módulos fotovoltaicos reciclados. Aqui, existe um intercâmbio distrital de energia, isto é, exportação e partilha do excedente de electricidade entre os restantes edifícios.
Esta diversidade de contextos permite ao projecto testar soluções em realidades distintas, contribuindo para a sua replicação futura, precisamente adaptável a diversos contextos. Por exemplo, o REN+HOMES vai desenvolver uma nova versão do sistema de Energia Primária Renovável [PER], que distingue dois climas: COLD (clima subártico continental) e WARM (clima subtropical húmido), respectivamente testados na Áustria e em Espanha.
Cada cidade enfrentou também desafios diferentes, tendo em conta as suas características. No entanto, a adaptação das novas tecnologias aos códigos de construção locais e a obtenção das licenças necessárias foram apontadas como os principais entraves à execução das obras. “Na Áustria, por exemplo, foi particularmente difícil obter as permissões para instalar o sistema de armazenamento de hidrogénio, devido às preocupações com a segurança e saúde”, explica Margherita Fabbri. Apesar disso, as semelhanças entre os sistemas regulatórios europeus têm permitido encontrar soluções comuns, com alguma margem de adaptação.
TECNOLOGIAS INOVADORAS E FERRAMENTAS DIGITAIS AO SERVIÇO DA SUSTENTABILIDADE E DA COMUNIDADE
O projecto incorpora um total de 23 soluções inovadoras, das quais nove são tecnologias físicas, sete são ferramentas digitais e sete são metodologias replicáveis. Entre as tecnologias destacam-se: os elementos pré-fabricados com materiais reciclados, que permitem acelerar os tempos de construção e reduzir os resíduos; o armazenamento de hidrogénio, que proporciona autonomia energética; e os sistemas geotérmicos e fotovoltaicos integrados. As ferramentas digitais incluem simuladores de desempenho energético e plataformas de planeamento de renovação com avaliação do ciclo de vida. Estas soluções são aplicadas em conjunto com metodologias que promovem a replicabilidade e adaptação a diferentes realidades europeias. Para Luisa de Amicis, da ICONS, o parceiro de comunicação deste projecto, “a principal vantagem é conseguir reduzir as emissões, diminuir os custos operacionais, acelerar os prazos de construção através da prefabricação e, ao mesmo tempo, aumentar a satisfação dos utilizadores graças aos processos participativos de co-design.”
Um dos aspectos mais diferenciadores do REN+HOMES é o forte envolvimento da comunidade. Em cada país, foram criadas Associações Nacionais de Utilizadores que integram os moradores dos edifícios dos projectos-piloto, permitindo recolher dados sobre os seus comportamentos antes e depois das intervenções. A par disso, foi também constituída uma Associação Internacional de especialistas europeus, cuja função é avaliar criticamente as soluções testadas e fornecer recomendações ao longo do desenvolvimento do projecto. Está também em curso a criação de programas de formação dirigidos a técnicos e organizações locais, identificados através de um registo de entidades interessadas, com o objectivo de garantir a disseminação das metodologias. Como explica Luisa de Amicis, “não estamos a tentar envolver cidadãos de forma genérica, mas sim a trabalhar com organizações que funcionem como multiplicadores de conhecimento e boas práticas.”
O objectivo é que o projecto também consiga desenvolver a metodologia Circular Plus Energy Homes, tal como refere Luisa: “Queremos construir casas que vão além da eficiência energética. Queremos uma casa que produza energia renovável activamente, que incorpore princípios de construção circular. Queremos também envolver os moradores no desenho e uso destas casas”. Ao existir esta articulação tão directa, existe maior probabilidade de a mensagem se propagar, fazendo com que o próprio projecto continue a crescer, inspirando outras zonas da cidade a serem mais sustentáveis.
ENTRE O PROTÓTIPO E O MERCADO: ACESSIBILIDADE E REPLICAÇÃO COMO PRIORIDADE
A acessibilidade económica e a replicação em larga escala são também pilares do projecto. Embora algumas das tecnologias ainda tenham custos elevados, há sinais promissores. Em Barcelona, por exemplo, os edifícios em construção já estavam praticamente vendidos antes de serem concluídos, demonstrando que existe uma procura crescente por habitações com preocupações ambientais e conforto acrescido. “Apesar de ainda não serem muito acessíveis, a procura é elevada, o que mostra que a sociedade está sensibilizada e disposta a investir em edifícios de energia positiva”, refere Luisa.
No entanto, os obstáculos para massificar estas soluções são substanciais. Desde logo, é necessária uma colaboração estreita com as autoridades públicas. Para Margherita Fabbri, “sem um caminho claro por parte das autoridades e sem incentivos acessíveis para os promotores, proprietários e fornecedores de tecnologia, não será possível replicar estas inovações em grande escala, não conseguimos fazer isso sozinhos”. A criação de incentivos fiscais, linhas de apoio à renovação e regulamentações flexíveis para tecnologias inovadoras será, então, determinante para a replicabilidade do projecto. Luisa de Amicis acrescenta: “Temos um ponto específico no projecto em que queremos colaborar com outras iniciativas para fortalecer a nossa voz, para que a nossa mensagem possa chegar a diferentes decisores políticos a vários níveis, do local ao internacional.”
Além disto, outra dificuldade está relacionada com a complexidade da renovação do património histórico, presente em grande parte do parque edificado europeu. “Quase todos os países europeus têm um grande número de edifícios, que estão protegidos por normas arquitectónicas e culturais. As intervenções nestes edifícios têm de ser minimamente invasivas, reversíveis e tecnicamente adequadas ao seu valor patrimonial”, refere Margherita Fabbri. Embora o projecto não actue directamente neste segmento, as soluções modulares e pré-fabricadas desenvolvidas podem, no futuro, vir a ser adaptadas a edifícios classificados.
O impacto do projecto estende-se também ao planeamento urbano. As casas de energia positiva testadas no REN+HOMES abrem caminho à criação de comunidades energéticas, onde a energia excedente de uma habitação pode ser utilizada para abastecer escolas, postos de carregamento de veículos eléctricos ou serviços partilhados, criando um ecossistema energético local, autossuficiente e colaborativo. Quando perguntamos se Luisa considera que os edifícios de energia positiva serão o futuro das cidades, a resposta é simples: “Devem ser, porque é a única forma de fazer a transição para um futuro climático neutro.”
“As cidades do futuro devem ser compostas por edifícios que produzem energia, formando distritos de energia positiva. Isto permitirá integrar as casas numa rede urbana resiliente e sustentável”, aponta Luisa de Amicis. “Já estamos a trabalhar numa lógica de transição do prédio para a cidade.”
CIDADES DO FUTURO: ENERGIA POSITIVA, SUSTENTABILIDADE E COMUNIDADES RESILIENTES
A longo prazo, o objectivo é que as tecnologias desenvolvidas atinjam o nível tecnológico 8 numa escala de 1 a 10, ficando assim muito próximas da entrada no mercado. O projecto visa não apenas a execução local, mas a criação de modelos replicáveis noutros países e contextos, contribuindo para a transformação estrutural do sector da construção. “Estamos a tentar democratizar o acesso à energia e à construção eficiente, criando novas opções que possam transformar o mercado e tornar as cidades mais resilientes”, afirma Luisa.
O REN+HOMES é, por isso, mais do que um projecto técnico. É uma proposta concreta de transição energética no sector da construção, que alia inovação tecnológica, participação social e sustentabilidade ambiental. Em linha com a missão da União Europeia para a neutralidade climática e as metas de renovação urbana, o projecto mostra que é possível transformar o parque edificado europeu de forma integrada, equitativa e eficaz.
“Temos de alcançar a neutralidade do clima em 2050. Temos poucos anos para o conseguir e muito trabalho pela frente”, reforça Luisa, que olha para profissões relacionadas com a sustentabilidade das cidades como cruciais – “é importante criar novas oportunidades, explorar novas metodologias para ajudar as cidades a serem mais sustentáveis, porque este é um problema urgente.”
Este projecto constitui-se como uma peça-chave no esforço europeu para alcançar cidades mais sustentáveis, eficientes e inclusivas. O seu legado, contudo, dependerá da capacidade de as políticas públicas acompanharem a inovação técnica e criarem as condições para que estas soluções cheguem ao mercado e aos cidadãos.
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