Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 161 da Edifícios e Energia (Setembro/Outubro 2025).
Um projecto de descarbonização desenvolvido em Braga permite reduzir anualmente mais de mil toneladas de dióxido de carbono (CO2).
A unidade da Bosch em Braga acaba de implementar um projecto de descarbonização que, entre outras medidas, resultou na construção de um parque geotérmico que veio ajudar a eliminar a necessidade de gás na localização, passando esta a utilizar exclusivamente energias renováveis, produzidas através de recursos não esgotáveis e que o planeta nos oferece gratuitamente, tais como: vento, sol, força das marés, energia geotérmica do planeta, entre outras.
Este projecto de descarbonização reflecte o trabalho desenvolvido no âmbito do compromisso com a sustentabilidade. Este não é um projecto isolado, enquadrando-se dentro da estratégia de transição energética que está a ser posta em prática, seja com aplicação de medidas e soluções que promovem a eficiência energética nas suas diferentes localizações, como também na vertente de desenvolvimento de serviços, e produção de tecnologias e produtos que vão ajudar os consumidores a utilizar as várias energias de forma mais eficiente e sustentável.
Desenvolvido e implementado entre 2022 e 2023, este novo projecto de descarbonização da Bosch em Braga materializou-se através da instalação de um sistema de bomba de calor geotérmica, que se traduz na combinação entre uma bomba de calor e, neste caso, 140 sondas geotérmicas levadas até uma profundidade de 133 metros, e assume-se como sendo uma das maiores centrais geotérmicas em Portugal Continental. Através das sondas geotérmicas e da bomba de calor de condensação a água, este sistema tem a capacidade de fornecer energia térmica em arrefecimento ou aquecimento de uma forma mais eficiente e económica do que qualquer outro sistema convencional. O recurso a este sistema geotérmico veio proporcionar uma redução muito significativa em emissões de carbono, estimando-se esta em cerca de 600 toneladas de dióxido de carbono (CO2 ) por ano.
A instalação do sistema geotérmico integra-se no plano alargado de transição energética da empresa, que tem como um dos principais objectivos, e já concretizado, a eliminação do uso de gás natural como fonte de energia primária. Do conceito base do projecto faz ainda parte um conjunto de medidas adicionais, que passam por diferentes soluções complementares de: recuperação de energia da infraestrutura já existente, nomeadamente dos equipamentos de produção de ar comprimido e de produção de água fria; sistemas de bomba de calor e chillers de elevada eficiência sazonal; e a permanente monitorização e optimização da gestão técnica dos edifícios, de forma a tornar o controlo dos sistemas de AVAC (Aquecimento, Ventilação e Ar-Condicionado) mais autónomos e eficientes. Combinadas, estas medidas equivalem a uma poupança de aproximadamente 5740 MWh (Megawatt) de gás natural, o que corresponde a uma redução anual das emissões de 1160 toneladas de CO2.
INSTALAÇÃO DE PARQUE FOTOVOLTAICO DIMINUI A DEPENDÊNCIA ENERGÉTICA DO EXTERIOR
Tendo actualmente a energia eléctrica como fonte de energia unitária, foi feito também o investimento na instalação de 5934 módulos fotovoltaicos capazes de gerar anualmente 4 GWh (Gigawatt/hora) de energia eléctrica, para autoconsumo na sua totalidade. Esta produção corresponde a cerca de 10% da energia necessária neste complexo industrial. O objectivo é continuar a expandir a produção de energia através de módulos fotovoltaicos até atingir uma capacidade de produção anual de 12 GWh até 2027, o que irá aumentar a resiliência energética do complexo para 30% das necessidades.
MONITORIZAÇÃO DE CONSUMOS REAIS NA BASE DA CONCEÇÃO DO PROJECTO
No passado, a fábrica da Bosch em Braga utilizava um mix energético de electricidade e gás natural, com este último a ser usado maioritariamente na produção de água quente, por sua vez destinada a ser utilizada nos sistemas de aquecimento e de controlo da climatização em todos os edifícios deste complexo industrial. O tipo de aparelhos produzidos na unidade de Braga requerem uma estabilidade muito restrita dos valores de temperatura e de humidade relativa que, por sua vez, se conseguem através de elevados consumos energéticos dos sistemas de ventilação, aquecimento e ar condicionado. Em 2021, o consumo de gás natural, única fonte de energia proveniente de combustíveis fósseis nessa altura, foi de cerca de 6% do consumo energético total. Daqui derivou o projecto para terminar com o uso de combustíveis fósseis nas instalações, o gás natural. Para tal, foram feitas análises através da monitorização dos dados dos consumos energéticos em tempo real nos vários edifícios numa plataforma de gestão de energia desenvolvida no âmbito da digitalização e da aplicação de soluções indústria 4.0 na unidade da empresa. Estes dados permitiram a optimização e redução dos consumos associados aos sistemas de AVAC, nomeadamente os da utilização de água quente, proporcionando à equipa uma visão geral e abrangente do desempenho do sistema. O entendimento do funcionamento do sistema serviu como base na conceção deste projecto de descarbonização.
O projecto bomba de calor-geotérmica concretizou-se através de um investimento de dois milhões de euros e integra-se no quadro de actuação do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência) para a descarbonização da indústria, cumprindo com os objectivos para a sua aplicação: “redução das emissões e conservação dos recursos naturais; melhoria contínua do desempenho energético; redução de custos e optimização de investimentos para a eficiência energética”

